3º dia do mês das Almas
Ontem assisti à celebração da Missa do dia de Todos-os-Santos, que se realizou, como sempre, no cemitério. Veio um pregador de fora como de costume, para o sermão. E ele começou, precisamente, por falar do sítio onde estava, o cemitério, e das sepulturas.
Nas sepulturas o que lhe chamou a atenção não foram os bonitos arranjos de flores, que havia em todas, mas outra coisa que também havia em todas: uma malga com água.

Disse ele que, quando entrou no campo santo, viu uma malga com água numa sepultura e pensou que era feitio; depois viu outra, e outra, e outra… verificou com surpresa que todas tinham uma malga com água, umas maiores, outras mais pequenas, de diversas formas e feitios. E quando lhe explicaram para que era, ele achou uma ideia muito bonita.

A água da malga, ou tigela, serve para benzer. Quando visitamos uma sepultura, ao chegar molhamos a mão e dizemos mentalmente: “Em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo…” enquanto aspergimos a sepultura; depois rezamos umas orações. Na despedida é igual, mas eu digo “Dai-lhes, Senhor, o eterno descanso…”
Desde sempre vi as malgas com água nas sepulturas. A meio do cemitério tem uma pia, a pia da água benta, onde antigamente o abade benzia a água no dia de Todos-os-Santos, durante a celebração da Santa Missa. Com a chegada de novo pároco deixou-se de fazer a cerimónia de bênção da água da pia, mas as tigelas continuam a ser cheias com água todos os sábados.
Eu pensava que havia isso em todos os cemitérios, mas pelas palavras do pregador parece que não, que é só na minha terra.

O padre pregador salientou as qualidades da água, como símbolo do Baptismo, em cima da sepultura.
“Fomos baptizados em Cristo e a água recorda que fomos revestidos de vestes brancas, que sujamos ao longo da vida e que precisamos lavar, para irmos ter com Deus. Por isso existe o Purgatório, para a purificação da alma, para a lavagem da nossa veste branca. E a malga da água em cima da sepultura significa precisamente isso: iniciamos a nossa vida em Deus com água, através do Baptismo, e terminamos tendo na sepultura a lembrança desse momento em que o sacerdote nos revestiu de vestes brancas; esperando o tempo necessário no Purgatório para que essa veste fique de novo limpa e possamos ver a Deus, que tanto ansiamos. A malga da água dá a certeza dessa ida para Deus, pois se fomos baptizados em Cristo com Ele ressuscitaremos…”
Foram mais ou menos estas as palavras do pregador acerca da água; falou de outras coisas também, foi um bonito e intenso sermão, mas o que disse acerca da água foi o que eu gravei mais no meu peito, pois tinha andado a manhã toda com este cântico na ideia: “Esta é a geração dos que procuram o Senhor, dos que vestiram túnicas brancas…”
(Depois de publicar esta mensagem recebi em jeito de comentário, de alguém que não se quis identificar, esta explicação. Copio-a para aqui, para uma melhor leitura:
"A água (benta, se possível) junto de uma sepultura recorda-nos que ali se encontra sepultado um cristão!
Acho muito piedoso e caridoso a aspersão dum túmulo com água. Há aí uma relação de fé e a afirmação da ressurreição.
A água do Baptismo lava-nos, regenera-nos e dá-nos a Vida. Se é certo que no Baptismo nos revestem com a veste branca, também é certo que a sujamos. E que a devemos lavar no sacramento da confissão. E por fim o Sangue do Cordeiro derramado gratuitamente por todos nós, é quem há-de lavar-nos e merecer-nos a morada eterna, a comunhão com os Santos, a visão face a face do nosso Deus.")







